João Batista Marçal: Um rebelde com causa

Militante de causas sociais, Marçal viu na comunicação a forma de expressar seus anseios e angústias.

Entre um cigarro, um mate e um palavrão, o radialista e pesquisador João Batista Marçal começa a revelar o que o levou a ser um rebelde. O índio charrua de Quaraí conheceu muito cedo a cultura uruguaia, simpatizando desde então com os princípios de liberdade e igualdade social. A influência começou em casa, com a mãe declamando o poema “Martín Fierro” – obra popular escrita por José Hernández – e, em uma de suas idas a Artigas para vender mercadorias contrabandeadas, conheceu um lustrador de sapatos que mudou sua vida. “O menino tinha entre nove e 10 anos. Paramos para conversar e ele me deu uma aula de Literatura. Arranhando um portunhol, me contou a história da Juana de Ibarbourou, famosa poeta uruguaia. Fiquei espantado com a sabedoria e passei a admirar esse povo”, comenta com entusiasmo.

Unido a isso, nasce no adolescente o inconformismo diante do que o futuro lhe reservava. E na atuação como contrabandista, surge um militante de esquerda anarquista e líder estudantil. “Na minha cidade, ou você era fazendeiro ou peão ou contrabandista. Como não tinha vocação para ser boi e vinha de uma família miserável, parti para a contravenção. O acesso à literatura revolucionária me incentivou a iniciar um movimento na cidade”, conta. O jeito eloquente e expansivo facilitou para que, ainda na adolescência, Marçal apresentasse o programa de rádio A Voz do Estudante. Nasce assim a paixão pelo veículo e um sentimento que identifica como ódio em relação à parte da elite do município.

O programa durou apenas seis meses, já que o radialista comandou a primeira greve operária, juntamente com um líder comunista, e uma greve estudantil. “Antes de acontecer tudo isso, eu era o que as meninas chamavam de “um mancebo interessante”, depois que passei a atacar a burguesia me tornei o patinho feio. Antes do golpe militar, praticamente já havia sido expulso da cidade. A gota d”água foi durante um sermão na missa de domingo, que o padre utilizou o espaço para me excomungar. Todas as portas haviam se fechado e decidi ir embora”, relata.

Peripécias na Capital

A chegada a Porto Alegre, em 1963, não foi fácil. Logo que conseguiu um emprego como metalúrgico se envolveu na luta sindical. Com a ditadura instaurada no País, a partir de abril de 64, Marçal passa a ser protagonista em confrontos com a polícia. Sua fama de comunista o leva para a cadeia pela primeira vez. “Babava de ódio cada vez que eles me chamavam de comunista. Levei muita surra, pois chamei eles de burro, já que não sabiam a diferença entre comunismo e anarquismo. Foi dolorido, mas pelo menos dei uma aula para eles”, ri.

Nesta época conseguiu seu primeiro emprego na imprensa, como repórter policial do jornal Zero Hora; porém, seu nome passa a ficar conhecido após um grave acidente ferroviário. Naqueles tempos, relembra, havia uma disputa entre os repórteres de rádio e jornal, fora a briga pela audiência entre as maiores emissoras, no caso Gaúcha e Guaíba. “Fazia o horário da meia-noite às 5h e, como o acidente aconteceu na madrugada, já estava com as informações para escrever o texto. Enquanto isso, os repórteres das rádios corriam e a Guaíba deu o furo. O pessoal da Gaúcha ficou enlouquecido e passaram a ligar para o meu ramal. Resisti um pouco, mas a pedido entrei no ar, mas da minha maneira”, descreve. A morte de 30 pessoas mais tantas outras que estavam feridas não impediu que o comunicador desse a notícia de forma debochada. “Entrei no ar dizendo: pois é, meninos, o pau comeu e aqui no local tem sangue até para fazer morcela.”

A rebeldia lhe rendeu uma visita à sala do empresário Maurício Sirotsky Sobrinho, que queria conhecer o radialista atrevido. Logo, passou a atuar na rádio Gaúcha, porém, seu jeito de ser, ao mesmo tempo que o tornou um personagem da história da comunicação no Estado, também respondeu pela perda de emprego inúmeras vezes. “Trabalhei em todas as emissoras de Porto Alegre, e toda vez que me mandavam para a rua era pelo mesmo motivo, agitação e subversão. Mesmo assim, não ficava dois meses desempregado, a audiência aumentava com a minha presença e isso significava dinheiro no bolso do patrão”, ressalta. A militância não era envolvida durante o expediente, garante, mas suas convicções ideológicas e princípios morais afloravam quando identificava algo errado no ambiente de trabalho.

Entre os inúmeros inimigos, Marçal também conquistou grandes amizades, entre as quais alinha a do presidente da Rede Pampa, Otávio Gadret, que lhe pedia constantemente para se acalmar, mas que igualmente o demitiu mais de uma vez. Além da Zero Hora, atuou por sete anos no jornal Diário de Notícias, onde passou pelas editorias de Polícia, Geral, Nacional, Internacional e Cultura – com esta se encantou e graças a ela se encaminhou para a vida literária anos depois. O Caderno de Sábado, do Correio do Povo, também contou com a sua participação, nos anos 70 e 80, quando era considerado o principal espaço cultural da imprensa gaúcha.

O maldito e a TV

A má fama, para alguns, o comportamento suspeito, para outros, nada o impediu de chegar à televisão, veículo que lhe deu a oportunidade de trabalhar com José Paulo Bisol e com a jornalista Vera Carpes. “Eles estavam querendo me mandar embora, mas precisavam de um motivo. Aí, me juntaram com a Vera, que era tão louca quanto eu. Passamos a buscar nas ruas pautas para o Jornal do Almoço. Passamos a humanizar a televisão com reportagens que traziam como detalhe as pessoas e seus problemas. Aqueles que antes nos torciam o nariz passaram a olhar nosso trabalho de outra maneira”, destaca.

A boa fase durou até o momento em que se recusou a executar uma pauta. Na época, muitas empregadas domésticas passaram a ser acusadas de roubo pelas patroas e, como a lei permitia divulgar a imagem sem prévia autorização, a ideia era colocar uma foto por dia com um aviso para ter cuidado ao contratar o serviço de uma doméstica. “Me apresentaram um álbum com muitas fotos de mulheres negras e pediram para divulgar como se fosse um aviso. Olhei aquelas fotos e reconheci umas quantas dos serviços que prestava nas vilas como militante. Me neguei e 15 dias depois estava na rua. Acabou assim minha passagem pelo mundo feito em uma caixa”, reflete, com certa amargura na voz.

A parceria com o bagual

Esta mesma voz forte rendeu um convite da Feplam para gravar spots para venda de poemas de autores gaúchos. Na ocasião, passou também a emprestar as suas habilidades para gravar as aulas de história do Rio Grande do Sul, produzidas pela instituição. “Sou muito metido e observei que, diante das pesquisas que já havia feito, muitas informações daqueles programas estavam erradas e chamei a atenção deles, que me deram o cargo de coordenador pedagógico. Atuei com isso até o momento de conhecer o Teixeirinha”, explica.

Foi durante uma gravação, e Teixeirinha de cara se encantou com Marçal. Começa aí, mais que uma relação entre patrão e empregado, uma forte amizade. O agora ator de cinema é contratado pela Teixeirinha Produções e, durante quase três anos, o rebelde comunicador se dividia entre suas atividades e a grande tela. “Com certeza, foi o melhor patrão que tive. Incrível dizer isso, mas com ele o jogo era limpo e honesto. Ganhei muito dinheiro, pois ele pagava aquilo que eu pedia.” Além dos filmes, Marçal apresentava na rádio Farroupilha o programa Teixeirinha Amanhece Cantando, que ficava no ar durante três horas.

A estima do cantor pelo radialista ficou evidente após uma denúncia que levou a polícia aos estúdios da rádio. “Devido ao meu envolvimento com a militância política, eu tinha acesso a dados de informantes confiáveis. Havia um jovem advogado negro que foi caçado e preso por provar que um desembargador de Porto Alegre havia retirado moradores de uma região da Zona Sul para construir a sua mansão. Durante um tempo, isso ficou preso na minha garganta, até que decidi falar”, conta. O Exército e a Polícia Federal foram acionados e, na hora da prisão, Teixeirinha chegou a sacar o revólver para defender o amigo. “Ele sacou a arma e ordenou que ninguém tocasse em seu funcionário. Claro que o seguraram para evitar uma tragédia, mas me senti lisonjeado”, acrescenta.

Foram a alma revolucionária e o constante inconformismo com a desigualdade social que fizeram de Marçal um militante político engajado em causas sociais. Ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre, e hoje afirma, com a convicção costumeira: “Pode dar na minha cara, mas cooperei para montar o partido aqui no Estado”.

No final dos anos 1980, participou da fundação do PSB. “Não consigo fazer política que não seja para a base, por isso larguei tudo. Ainda esses dias, durante uma visita a uma universidade, um estudante me indagou sobre meus rumos ideológicos e disse que continuo sendo um homem de combate, e citei Gonçalves Dias: “Viver é lutar. A vida é um combate que os fracos abate. Que os fortes, os bravos só pode exaltar”. Não preciso da política para continuar combatendo tudo que violenta a dignidade humana.”

O refúgio do guerreiro

A escolha pela Vila Isabel, bairro da cidade de Viamão, não foi por acaso. Na década de 1980, o município elegera um prefeito de esquerda, “querido até mesmo pelos anarquistas”, segundo Marçal. Prefeito que, por conhecer e admirar o trabalho do radialista, o convidou para chefiar o gabinete de imprensa. A empreitada durou dois anos, porém, Marçal nunca mais deixou o município. “Me apaixonei por uma moça daqui, com quem fiquei casado durante 25 anos, até o seu falecimento há três anos. Larguei um casamento que já não estava bom e vim para cá com a roupa do corpo, meus livros e discos”, salienta.

Com gatos, os felinos, a tiracolo, Marçal fala com muito carinho sobre seu lar e local que realiza as pesquisas que deram origem a 19 livros e mais três obras que serão publicadas ainda neste ano. Quase que como uma declamação, o radialista diz: “Daqui só saio morto. Aqui é meu canto. É aqui que vivo, trabalho, que sonho, me multiplico pra viver com dignidade. É o meu refúgio, minha trincheira, o descanso do guerreiro, o canto dos meus sonhos”.

Na era do compartilhamento, o índio xucro, que não vê a tecnologia com bons olhos e ainda utiliza a velha e confiável máquina de datilografar Remington, abre as portas de sua casa para dividir o conhecimento adquirido durante todos esses anos. “Todos os sábados de tarde reúno a gurizada de todas as universidades e faço uma chacrinha aqui em casa. Atendo todos que precisam pesquisar para produzir seus trabalhos de Mestrado e até mesmo Doutorado”, diz.

Pai de três meninos e duas meninas, Marçal tem hoje uma atuação discreta no rádio, com comentários culturais no programa Galpão do Nativismo, da Rádio Gaúcha. Inquieto, fumou quase uma carteira inteira de cigarros durante esta entrevista. Figura de personalidade forte e marcante, afirma que faria tudo novamente. “Não me arrependo de nada e faria tudo de novo. Não por heroísmo, mas porque venho de um tempo em que os homens tinham ideologia e princípios”, finaliza.

 

João Batista Marçal | Crédito: Gabriele Lorscheiter

Autor – Publicado em Coletiva Net em 26/06/2015

 

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